Pensei hoje que deveria ter um diário, não que este não seja, mas algo mais íntimo, algo que guardasse minhas - e só minhas - lembranças das minhas - e novamente só minhas - experimentações e sensações com o mundo e as pessoas que me atravessaram ou compartilharam as experiências.

Talvez me resumir em idades, ou em décadas como li de um sábio. Quem sabe assim, chegado aos noventa - ou cem porque não? - teria uma memória auxiliar capaz de me contar: Meu velho, este foste tu. Não que seja lá grandes coisas. Pelo menos eu seria - com promessas veementes - sempre sincero com meu diário! Surpreendente como é difícil apenas manter-se sincero, especialmente quando o infeliz para quem narrar-lhe todas as impressões é você mesmo. Muito mais fácil é ser psicólogo.

No meu diário eu narraria os fatos seguindo tópicos que me fossem interessantes e obviamente sempre os mesmos, para que fosse capaz criar cronologia e comparação: De súbito seriam eles: Minhas - poucas - mulheres e amores; meus amigos e conviventes contemporâneos ou não; minhas impressões do mundo e delas minhas conclusões, filosofias e expressões artísticas, sentimentais ou meramente humanas; Estranhamente isto hoje me resume. Não engane-se: Viver é um ato inexoravelmente solitário. Sábio aquele que sabe dele augir a plena devoção e dela a simples felicidade.